É como se a Olimpíada de Tóquio não acontecesse em Tóquio

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A Olimpíada de Tóquio não é para amadores – eis a conclusão depois de uma semana de competições. Como se não bastassem os transtornos causados pela pandemia do Covid-19, com o estado de emergência em Tóquio ampliado para o dia 31 de agosto, em decorrência da multiplicação de casos, um outro transtorno se abateu sobre a metrópole: na semana passada, a tempestade tropical Nepartak, com ventos fortes, de até  72 km/h, atingiu em cheio Hokkaido, a principal ilha do Japão, onde fica a capital. No surfe do campeão Ítalo Ferreira, etapas foram antecipadas, para tentar escapar das fortes chuvas, ventos e ondas altas causados pela tormenta. Na vela, houve adiamentos. O vôlei de praia teimou em continuar, mas com um jogo diferente, com areia pesada e a bola molhada.

A natureza, sempre implacável, trouxe nova dor-de-cabeça em uma longa lista de contratempos. Em 2016, quando o ex-primeiro-ministro Shinzo Abe apareceu fantasiado de Super-Mario, o personagem dos games, no encerramento da Olimpíada do Rio, o Japão pretendia exibir-se como um país da reconstrução e da recuperação, capaz de superar desastres, como o tsunami que atingiu Fukushima, em 2011, de olhos postos para o futuro. A pandemia, contudo, mudou radicalmente os planos iniciais.

Em vez de mostrar a eficiência nipônica, a vacinação contra a Covid-19, no país foi um fiasco: apenas 25% da população japonesa está totalmente vacinada. Sem uma imunização eficiente, os casos explodiram em Tóquio, bem no momento em que a cidade deveria ser apenas festa. Houve ainda surtos de corrupção e misoginia. Acusado de envolvimento com suborno, Tsunekazu Takeda, um alto diretor do Comitê Olímpico Japonês, teve de pedir demissão. Depois caiu Yoshiro Mori, presidente do Comitê Organizador, que fizera brincadeiras inaceitáveis contra as mulheres. Dias antes da abertura, Keigo “Cornellius” Oyamada, o compositor do tema oficial dos Jogos Olímpicos de Tóquio, renunciou depois de revelados episódios de bullying contra colegas de escola na adolescência.

A pandemia, os escândalos, tudo, enfim, colaborou para fazer da Olimpíada um estorvo aos olhos dos cidadãos de Tóquio. Pela janela dos ônibus, entre os locais de competição e o hotel, o que um estrangeiro menos vê é o logotipo Japão 2020. Produtos alusivos aos Jogos encalharam. Praticamente trancada em casa, em uma época do ano em que a temperatura chega a 32ºC, a população voltou-se contra a competição. Em maio, uma pesquisa do jornal Asahi Shimbun, um dos maiores do país, revelou que 83 % dos japoneses eram contra a sua realização. Uma petição pedindo o cancelamento sumário dos Jogos foi assinada por 430 mil pessoas. Como as coisas pioraram, apesar da glória e drama dos campeões, é possível imaginar que o humor também azedou ainda mais. Novas pesquisas de opinião pública serão divulgadas nos próximos dias.

Com tudo isso, não teria sido melhor adiar a Olimpíada? Custaria caro do ponto de vista financeiro e político. Os Jogos de Inverno de Pequim estão marcados para ocorrerem entre 4 e 20 de fevereiro de 2022. Do ponto de vista geopolítico, pegaria mal, para o Japão, não ter os Jogos e ver os rivais manterem o seu cronograma intacto. Diz Kazuto Suzuki, professor da Universidade de Tóquio. “Seria um triunfo para a China e algo intolerável para os japoneses”. Outro problema de ordem prática: não haveria mais espaço no calendário esportivo. “Se a Olimpíada de Tóquio não se realizasse em 2021, o mais provável é que fosse cancelada”, disse o inglês Sebastian Coe, presidente da World Athletics e membro do Comitê Internacional. “O calendário de 2022 não tinha datas disponíveis, com a Copa do Mundo de futebol, no Catar, e outras competições, muitas das quais já tinham sido adiadas.” Mesmo sendo obrigada a sacrificar a presença de público nos estádios e ginásios (impacto de cerca de 800 milhões de dólares), o custo de cancelar seria bilionário. Estima-se que o seguro a ser pago pela anulação adicionaria mais 2 bilhões de dólares à conta. As despesas com a organização do evento, adaptadas aos protocolos contra a Covid-19, já alcançaram 15,4 bilhões de dólares – cerca de 20% diretamente ligados ao adiamento de um ano. Sessenta patrocinadores japoneses pagaram 3 bilhões de dólares para associar suas marcas ao torneio e, apesar do desconforto, apesar de terem reduzido a toada de anúncios, não queriam perder a oportunidade de aparecer com suas logomarcas mundo afora.

Outra encrenca considerável seria com os direitos de transmissão de televisão. A Comcast, controladora da rede de TV NBC, pagou 4,38 bilhões de dólares para ter os direitos de transmissão. A Discovery pagou o equivalente a 1,4 bilhão de dólares pela transmissão para a Europa. Em resumo: apesar dos protocolos e interdições, só havia uma opção, por mais impopular que fosse: seguir adiante.  E então a locomotiva não parou.

Com tudo isso, sobrou para os organizadores a missão quase impossível de fazer uma Olimpíada de mínimo impacto para a rotina da cidade – especialmente em relação ao controle sanitário. Com exceção de atletas, dirigentes, jornalistas e diplomatas, estrangeiros não entram no Japão. Clima de festa, também não há. Como parte dos protocolos, quem está nos Jogos passou por uma bateria de testes negativos – dois do tipo PCR, antes de deixar o país, seis antigênicos – nos quais o Covid-19 pode ser detectado em amostras de saliva. E durante 14 dias, terá de viver em um mundo paralelo, sem se misturar com os locais. Apenas hotéis selecionados podem receber os estrangeiros, que não podem sentar-se na mesa de um bar, ir a um restaurante ou fazer compras. “Considere que 85% dos jornalistas e 70% dos atletas foram vacinados e cerca de 250 mil testes foram realizados”, diz o inglês Mark Adams, porta-voz do Comitê Olímpico Internacional. “Com estas medidas, certamente, Tóquio é uma das cidades mais seguras do mundo, neste momento de pandemia”.

Contudo, o otimismo de Adams esbarra em evidências inconvenientes. O mundo vê a Olimpíada pela televisão, com ginásios e estádios vazios, o som de cigarras a substituir aplausos e apupos. Do lado de fora, há desânimo. Os japoneses têm a sensação de terem desembolsado dinheiro demais para uma festa que não aconteceu. É como se a Olimpíada de Tóquio não acontecesse em Tóquio.

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