Entrevista com Cristiane, a maior artilheira da história das Olímpiadas

Entrevista com Cristiane, a maior artilheira da história das Olímpiadas

Os ponteiros do relógio marcavam 20 horas quando, de maneira virtual, devido à pandemia e a distância entre Minas Gerais e São Paulo, nos encontramos. Cristiane Rozeira atendeu Rafael Alves e eu, Christian Maia, com um sorriso no rosto. “Então esse é o sorriso de uma recordista olímpica?!”. Me perdi por um segundo em meus pensamentos, afinal estava ali do outro lado da tela a maior artilheira, entre homens e mulheres, dos Jogos Olímpicos até aqui, com 14 gols marcados.

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Ela vestia um agasalho cinza e o cenário tinha um fundo da patrocinadora Adidas em preto com os dizeres “Live com Cris Rozeira”. O bate-papo começou com Cris recordando alguns momentos especiais, as tão sonhadas medalhas olímpicas em Atenas e Pequim, em 2004 e 2008, respectivamente. “Ter colocado uma medalha olímpica no peito foi muito especial”. Novamente o sorriso da vitoriosa atacante de 36 anos apareceu.

A ausência em Tóquio é um assunto sensível. A entrevista foi realizada após a convocação da técnica Pia Sundhage, que deixou Cristiane fora das selecionadas para os Jogos Olímpicos. Ao ser avisada sobre o tema das perguntas, Cris brincou “sobre seleção você que se resolva com a minha assessoria”. Insistimos, mesmo assim. Meio sem jeito, respondeu brevemente: “não tinha como não ficar chateada”.

Mas perder a Olimpíada não é um adeus da seleção brasileira. Pelo menos não para ela. “Vai depender se vão me levar ou não. Eu não sai da seleção ainda, estou disposta. Sempre estive. Não vou fechar as portas agora, acredito que eu tenho futebol para isso, tenho trabalhado para isso, e enquanto estiver me sentindo bem, estarei tentando. Não coloquei um ponto final na minha história ainda não”, disse a atacante de 36 anos.

Pia Sundhage e Cristiane durante conversa em treino pela seleção brasileira em janeiro –Laura Zago/CBF

Aproveito para perguntar qual foi a derrota mais sentida na carreira. Segundos de silêncio antecederam a resposta. “Quando se perde uma briga por medalha, você sente bastante. Porque você fica pensando que poderia fazer algo melhor. Quando se perde uma medalha, seja olímpica ou mundial você sente um baque. Porque você está ali próximo do seu objetivo e não o consegue. Fica um sentimento de frustração”, avalia.

Cristiane Rozeira se descreve como uma mulher carinhosa, competitiva, companheira, exigente consigo mesma, amiga, família e super mãe. Enquanto nos respondia, podíamos ouvir ao fundo seu filho Bento. Começamos a falar sobre a maternidade. “Eu já vinha de uma calmaria, mas o Bento me trouxe toda a paz do mundo. As meninas brincam me perguntando sobre a Cristiane encrenqueira. Agora ela está tranquila”, respondeu com um brilho nos olhos.

Relembrar as brigas do passado fazem Cristiane viajar no tempo. “De tanto apanhar querendo ajudar, brigando por coisas que nem eram para mim, percebi que estava apanhando sozinha e isso de certa forma me prejudicava. Vivi situações dentro de clubes que tentei mostrar que precisava melhorar e eu ainda sai como errada”. Nesse momento, a feição serena de Cris deu lugar a uma expressão mais séria. A atleta afirmou que toda essa experiência a fez refletir, passando a se posicionar: “espera aí, eu fiz um montão de coisa. Vai lá você agora fazer um pouquinho também”.

Curioso com a resposta da pergunta anterior, perguntei se essas brigas por melhorias eram função ela pelo nome que construiu dentro do esporte, e, a partir daí, ela poderia cobrar coisas melhores. “Algumas brigas sim. Mas na hora de segurar a bronca, eu segurava sozinha e saia responsável por ela. Eu vivi situações dentro de clubes onde sai e os torcedores estão me xingando até hoje, como se eu quisesse causar um dano muito grande. E a realidade era justamente o contrário. Acabei aprendendo na pancada que tem coisas que não dá pra brigar, tem que deixar as pessoas verem que está incomodando para então lutar por melhorias coletivamente”.

Seguimos nossa conversa traçando um paralelo entre o esporte e a sua influência na sociedade. Cris respirou e olhando para o horizonte começou a construir seu pensamento. “A gente já vem transformando a vida de um montão de meninas, conseguimos criar uma realidade para essas meninas diferente da nossa”. A atacante ressalta alguns dos pilares construídos nos últimos anos, como a visibilidade e o apoio de algumas marcas que hoje se propõem a incentivar o esporte feminino. Vale pontuar que o futebol feminino era proibido no Brasil até a década de 90, enquanto os homens já eram tricampeões mundiais. Tal proibição acarretou em atrasos no desenvolvimento da modalidade, que passou a ser vista como sinônimo de luta. Cristiane foi uma dessas guerreiras.

E ela reconhece a batalha travada. “Graças a todo esse processo de luta constante conseguimos ajudar e fazer com que a vida dessas meninas que estão começando agora seja um pouco mais ‘fácil’”. A atacante destaca a figura de linguagem com um sinalzinho de aspas com os dedos. Foi possível perceber o orgulho da atleta ao ver a modalidade que ela tanto ama se desenvolvendo. “Eu brinco: começamos roendo o osso e hoje a galera está comendo picanha. Acredito que a oportunidade que essas meninas têm de dar continuidade com o que foi deixado é muito grande”.

Cristiane em ação pelo Santos contra o Cruzeiro pelo Campeonato Brasileiro –Pedro Ernesto Guerra/Santos FC

Pergunto para Cris se ela acredita que o futebol feminino pode ensinar para nossa sociedade atual valores como respeito, igualdade e educação. A atleta afirma que o esporte, de maneira geral, carrega esses valores, independente do gênero. “Aprendemos no esporte a lidar com a diversidade, afinal se trata de um esporte coletivo. É claro, teremos uma atleta que pode decidir em um momento ou outro, mas você precisa saber lidar com todo mundo”.

Em sua resposta, a experiente atleta destaca outro ponto: a valorização do trabalho, independentemente do resultado. “Independente de ganhar uma medalha de prata ou bronze, ela é de extrema importância porque você se dedicou para aquilo, jogou contra grandes equipes para que pudesse conquistar um lugar no pódio”.

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Após alguns minutos debatendo sobre sociedade e vida pessoal, voltamos para o campo. Questionei a Cris sobre qual o momento que ela considera o mais marcante em sua carreira. “O começo!”, disse após uma rápida olhada para o lado, como se naquele milésimo de segundo tenha passado um filme pela sua cabeça. “O Pan Americano em 2003, com o meu gol de ouro, foi onde tudo começou. Acredito que aquele momento me abriu portas para uma seleção adulta”. Cris relembra e ressalta a importância da confiança que possuía com a comissão técnica da seleção que a convocou e a colocou para jogar como uma menina de apenas 18 anos.

O sorriso apareceu novamente após Cris se lembrar do momento em que lhe foi dada uma responsabilidade imensa: representar a sua nação em uma competição do tamanho das Olimpíadas. “Fiquei muito feliz. Lógico que deu um frio na barriga, mas não fiquei com medo. Vi ali a oportunidade da minha vida. Se me dessem a chance e eu não abraçasse, dificilmente eu teria outra”. Ainda bem que ela aproveitou muito bem.

Cris se arrepende de algo da carreira? “Não! Eu acho que tirei tudo como aprendizado, sejam as escolhas certas ou as erradas, bons ou maus momentos. Porque você consegue tirar algo de tudo”.

Nossa conversa já se aproximava do apito final quando perguntei para Cris onde ela se colocava na história do futebol feminino. Cristiane olha para o horizonte e respira fundo. A resposta vem acompanhada de um contexto histórico, relembrando as atletas que a antecederam. “Temos grandes atletas na nossa modalidade, mesmo as meninas lá atrás…” Nesse momento, Cris traça um comparativo. “Se tínhamos 0 de apoio, essas meninas que começaram antes tinham -10. Foram atletas que com praticamente nada tentaram alguma coisa. Portanto, é difícil se colocar em um certo patamar”.

Cristiane continua. “Dentro do futebol brasileiro e mundial eu sei que estou na história. A gente conseguiu mostrar pro mundo que conseguíamos brigar por competições mesmo sem estrutura. Conseguimos marcar nosso nome na modalidade”. Cristiane também ressalta o reconhecimento e relevância que tem fora do país por tudo que já fez e vem fazendo, além, claro, de deixar um legado para as próximas gerações.

Ela não se vê longe do esporte. Está terminando o curso da Licença B de treinadora da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e pretende fazer um curso de gestão no esporte para ter uma ideia de qual caminho seguir. Me peguei pensando novamente, desta vez na Cris como dirigente ou treinadora. A atacante também ressalta a importância em aliar a vivência dentro de campo com o estudo e acredita que isso pode ajudar na orientação das futuras gerações.




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