Discreta e improvisada: o que esperar da abertura dos Jogos de Tóquio

Discreta e improvisada: o que esperar da abertura dos Jogos de Tóquio

Os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 começarão oficialmente na próxima sexta-feira, 23, a partir das 8h (de Brasília), com a realização da cerimônia de abertura no Estádio Olímpico da capital japonesa. Será uma festa bonita, como sempre, mas esquisita, bem diferente do show de luzes e megalomania das outras outras 31 edições. Se há cinco anos o Maracanã viveu uma noite apoteótica, com a presença de 12.000 atletas, estrelas internacionais e mais de 60.000 torcedores eufóricos com o início da Rio-2016, a edição asiática terá tom melancólico, com a pandemia do novo coronavírus como pano de fundo, em uma cerimônia reduzida para amenizar uma surreal sequência de imprevistos.

Como de costume, a maior parte dos detalhes foram mantidos em sigilo. Sabe-se, no entanto, que cada uma das mais de 200 delegações terá apenas dois porta-bandeiras no gramado, enquanto o restante dos competidores assistirá ao arder da tocha isolados em seus quartos na Vila Olímpica. Os representantes brasileiros serão Bruno Rezende, campeão olímpico de vôlei no Rio, e a judoca Ketleyn Quadros, bronze em Pequim-2008, além do chefe da delegação brasileira, o vice-presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), Marco La Porta.

O Comitê Organizador informou que cerca de 950 pessoas estarão presentes no reformado estádio com capacidade para 68.000 pessoas. As últimas cerimônias costumavam passar de três horas de duração; desta vez, a expectativa é que não chegue a duas. Nas arquibancadas, haverá menos chefes de estado do que de costume. O primeiro-ministro japonês Yoshihide Suga, a primeira-dama dos EUA, Jill Biden, e o presidente francês Emmanuel Macron, confirmaram presença.

O novo coronavírus dará o tom da cerimônia repleta de ineditismo. Além de ser a primeira Olimpíada adiada em um ano e sem a presença de público, é também pioneira em relação a tamanha rejeição da população anfitriã. Com a pandemia de Covid-19 longe do fim (a metrópole asiática registrou 1.979 novos casos nesta quinta-feira, 22, o maior salto de infecções desde 15 de janeiro), cerca de 75% dos japoneses eram a favor do cancelamento, segundo pesquisas recentes. Só entre atletas e outros participantes dos Jogos, as contaminações já passam de 90 desde que a Vila Olímpica foi aberta.

Ainda que o lema do evento seja “Jogos da Reconstrução”, a organização admite que não há clima para ostentar. O momento exige sobriedade e a proposta será exaltar o país-sede por meio de apresentações artísticas mais simples, sem tantas coreografias e luxuosos adereços.  “Será uma cerimônia muito mais sóbria. Mesmo assim, com uma bela estética muito japonesa, mas em sincronia com o sentimento de hoje, a realidade”, disse Marco Balich, conselheiro sênior dos produtores executivos das cerimônias olímpicas, à agência Reuters. A pandemia, portanto, provocou uma série de mudanças nos planos, de modo que a mensagem passada se tornou mais importante que questões estéticas.

As bases do evento, cuja versão moderna teve início em Atenas, em 1986, serão mantidas. Haverá a entrada do ex-chefe de estado japonês Shinzo Abe, a execução dos hinos do Japão e da Olimpíada, o desfile dos porta-bandeiras, o lançamento simbólico das pombas, o juramento olímpico e o momento mais emblemático, quando a pira olímpica é acesa.

Demissões em série e confusões sem fim

O sentimento do Comitê Organizador dos Jogos ao final da cerimônia certamente será de alívio. Não bastasse o drama de por em pé um megaevento em meio a uma pandemia, Tóquio teve de lidar com uma inacreditável série de escândalos que culminaram em ao menos três trocas na direção do evento. A primeira confusão ocorreu em 2015, quando o projeto inicial elaborado pela aclamada arquiteta britânico-iraquiana Zaha Hadid de reforma do Estádio Olímpico foi aprovado. Os altíssimos custos da construção (2,3 bilhões de dólares), no entanto, causaram uma onda de protestos e a mudança do projeto, que ficou a cargo do arquiteto local Kengo Kuma.

A direção da festa foi o maior foco de tensões.O ator japonês Mansai Nomura, primeiro designado para o cargo, desistiu depois que a Covid-19 mudou todos os planos. O publicitário japonês Hiroshi Sazaki assumiu seu lugar, mas acabou demitido em março deste ano por fazer uma piada gordofóbica contra uma famosa comediante local. Antes, em fevereiro, o ex-primeiro-ministro Yoshiro Mori também teve de se demitir após fazer comentários sexistas.

Em seguida, uma nova bola fora: o músico japonês músico Keigo Oyamada, conhecido como Cornelius, responsável pela música tema dos Jogos, pediu para deixar as cerimônias de abertura e encerramento, após o vazamento de vídeos em que ele admitia praticar bullying contra deficientes físicos nos tempos de colégio. Já nesta quinta-feira, o diretor artístico da abertura, Kentaro Kobayashi, foi demitido na véspera da cerimônia, em resposta ao aparecimento de um vídeo antigo em que o profissional faz piadas sobre o Holocausto, o genocídio de cerca de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

Foi, portanto, uma sequência que não apenas contraria a imagem de total discrição que os orientais costumam passar como representam uma imperdoável afronta o mote dos jogos, de inclusão e fim dos preconceitos. Tudo, portanto, jogou contra e contribuiu para que até mesmo as patrocinadoras do evento decidissem abandonar o barco. A fabricante de carros Toyota, principal apoiadora global do evento, desistiu de realizar ações durante a cerimônia.

“Este movimento das marcas é fruto da discussão social sobre a relevância do entretenimento em um momento de dor e sofrimento. Quando a realidade gera dúvidas, o retorno das marcas se torna mais incerto. Isso aconteceu recentemente também na Copa América no Brasil, onde algumas empresas acabam questionando se valeria a pena realizar este investimento”, explicou a VEJA Bruno Maia, especialista em inovação e novos negócios na indústria do esporte, sócio da agência 14. Apesar dos pesares, a pira olímpica será acesa, com transmissão dos canais do Grupo Globo e do BandSports.


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