Deuses no futebol e na música

Deuses no futebol e na música

Preciso começar este texto dando um aviso a todos vocês, ilustríssimos leitores do passado. A partir de hoje serei o mais sorrateiro e discreto possível ao desembarcar da máquina do tempo. Isso porque, com a “ajuda” dos linguarudos coleguinhas da imprensa, tenho enfrentado problemas ao chegar e ser reconhecido em qualquer importante dia da história do nosso futebol. Sou logo cercado por uma multidão de torcedores, numa avalanche de perguntas sobre o futuro: “Quando o Brasil vai ser Hexa?”; “Quantas vezes o Palmeiras vai ser campeão mundial?”; e por aí vai… Daí eu ter começado esta semana a optar por destinos menos óbvios, numa tentativa de despistar a legião de curiosos, famintos por revelações sobre a sorte de suas paixões. Nada de campeões estaduais, que vinham sendo definidos quando deixei 2021. Bob Dylan estará fazendo 80 anos – sim, avisem ao bardo que ele chegará lá – e resolvi então vir parar aqui, nesse 6 de fevereiro de 1990, a tempo de testemunhar um dia histórico de outro Deus inquestionável: Zico, que ontem, pela última vez, fez a bola rolar macio no gramado do Maracanã. Rolar macio… Like a Rolling Stone… Sacou?

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Tive então uns dez dias de clandestinidade antes de batucar no teclado desse computador 286 com tela esverdeada, que consegui usar por benevolência de um jornal carioca, sentado ao lado de um velho jornalista com blazer de ombreiras. Cheguei no último dia 25, e enfim pude comparecer ao Hollywood Rock, frustração de minha juventude (eu só conseguirei estar aqui ano que vem, quando Dylan, acredite!, volta). Haverá ainda mais três momentos brazucas do bardo até 2021, de onde venho, quando dar-se-á (vocês escrevem assim nos anos 90? Não lembro. No futuro mesóclises serão como ombreiras em blazers: abolidas) a comemoração de oito décadas do artista. Já comecem a notar: daqui a 31 anos Dylan ainda estará compondo, cantando e até ganhando Prêmio Nobel – alerta de spoiler: não será o da Paz. Também foi minha primeira vez no jogo-despedida do Galinho, até porque, enquanto esteve na ativa, ele me fez sofrer muito com seus gols contra o meu time. Mas ontem não! Eu era Zico de carteirinha! Fui ao Maraca de camisa estampada com a foto do craque e me juntei ao coro de “Por que parou? Parou por quê?”.

Sim, eu fui um dos 95 mil torcedores que sacudiram lencinhos brancos no Maior do Mundo. Zico não balançou as redes, mas nem precisava. Foram 508 gols em 732 jogos pelo Flamengo. Merecia virar presidente do Flamengo! Não será, mas Roberto Dinamite sim, ainda assume como presidente do Vasco – não contem pro Eurico. Explico a vocês que no futuro as estatísticas do futebol terão que abrir duas colunas para o Maracanã: 1) Maiores artilheiros da história do estádio antes da reforma; 2) Maiores artilheiros da história do estádio depois da reforma. Serão mesmo dois estádios diferentes. Mas ao menos isso servirá para eternizar Zico como líder inconteste e inalcançável do primeiro item. Somará incríveis 334 gols em 388 partidas neste campo, seja vestindo a camisa do Flamengo ou da Seleção Brasileira. A lista do item B, os maiores artilheiros depois da reforma, também terá um líder destacado, coincidentemente do mesmo Flamengo. Mas essa faço questão de não contar. E não insistam!

Ontem foi maravilhoso ver de perto, no time adversário, “stars” do futebol mundial como Breitner, Mario Kempes, Gentile, Tarantini, Rummenigge… Se já são legendas hoje, imaginem em 2021! Agora segura essa: também está escrito nas estrelas que Zico ainda tem muitos anos de bola. Vai jogar no Japão, depois virar técnico, de Seleção inclusive, comentarista de rádio e TV, fundar um time de futebol… Ainda vai ralar muito o Galinho. Inclusive aqui no Maracanã, onde tornar-se-á (olha a ombreira aí de novo!) obrigatória e sagrada, ao fim de cada temporada, a realização de um jogo de encerramento reunindo masters e jovens talentos. Mais ou menos como ontem, mas com menos glamour e bem mais quilinhos na balança, principalmente do astro principal da festa, que mesmo assim jamais vai perder o toque leve e refinado na bola. Zico é Zico!

Daqui a alguns anos terei a chance de conhecer esse monstro sagrado pessoalmente, trabalhando juntos, o que fará minha admiração se multiplicar. Um Deus do futebol! No templo do Maracanã, Dylan jamais lançou seus versos desconcertantes. Nos Estados Unidos, seu legado é tamanho que existem museus e até uma Universidade que oferece curso superior em cultura dylanesca. Se o Brasil aprender a reconhecer seus grandes nomes, o futebol ainda terá muitos espaços de reverência a seus talentos nas artes, na cultura e nos esportes. E não estátuas e mais estátuas de políticos e governantes. Por falar nisso, não posso me despedir sem deixar um alerta. Ninguém vai me confiscar o direito de revelar a todos vocês algo muito importante. Prestem muito atenção: tirem já o seu dinheiro da poupança! Logo, logo ele estará Blowin’ in the Wind.

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O jogo de despedida de Zico pelo Flamengo contra uma seleção de masters de todo o mundo –./Reprodução

FICHA DO JOGO

Flamengo 2 x 2 World Cup Masters

FLAMENGO 81: Raul (Cantarele), Nei Dias, Leandro, Marinho e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico.

WORLD CUP MASTERS I: Taffarel, Gentile, Edinho, Krol e Breitner; Falcão, Causio e Mario Kempes; Valdano (Hansi Muller), Roberto Dinamite e Rummenigge. TÉCNICOS: Sebastião Lazaroni, Telê Santana, Edu Coimbra e Carlos Alberto Torres.

FLAMENGO 90: Zé Carlos, Leandro (Júnior Baiano), Júnior (Uidemar), Fernando e Leonardo; Aílton, Edu e Zico; Renato, Bujica e Zinho.

WORLD CUP MASTERS II: Taffarel, Gerets, Camacho, Edinho e Tarantini; Madjer, Hansi Muller e Mário Kempes; Messey, Claudio Adão e Bebeto. TÉCNICOS: Sebastião Lazaroni, Telê Santana, Edu Coimbra e Carlos Alberto Torres.

GOLS: Fernando (FLA) – 8’/2ºT, Cláudio Adão (WCM) – 12’/2ºT, Tarantini (WCM) – 34’/2ºT e Leonardo (FLA) – 35’/2ºT

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